(Publicado na Folha de S. Paulo, em 18/12/99)
A origem da fórmula Terceira Via é pouco
ilustre: foi empregada pelo fascismo para indicar um projeto que
se pretendia equidistante do liberalismo e do comunismo
Fantasia da Terceita Via
MARILENA CHAUI
Leitores de jornais e telespectadores devem estar um tanto
perplexos. De fato, no intervalo de 15 dias puderam presenciar um
fenômeno desconcertante, qual seja, a passagem da confraria
progressista de Florença à guerra de Seattle (e não apenas a
guerra das ruas, entre manifestantes e Guarda Nacional, mas a
guerra interna entre os participantes do evento). Que se passou
entre a pastoral da Terceira Via e a belicosidade da Rodada do
Milênio? Sabe-se que, para muita gente, a política
contemporânea se reduz à marquetagem. Foi um golpe de mestre de
grande marqueteiro realizar uma reunião de cúpula sobre a
Terceira Via em Florença. Como escapar da simbolização
evidente? Foi em Florença, dirigindo-se ao ocupante "della
Signoria", que Maquiavel consolidou a Renascença política
e deu origem ao pensamento político moderno com a figura do
Príncipe Novo. Nada mais adequado, portanto, aos que pretendem
propor o projeto político do próximo século do que fazê-lo na
terra de Maquiavel. Todavia o motivo simbólico foi duplo: além
desse primeiro, a escolha de Florença visou também neutralizar
o encontro dos partidos socialistas europeus, realizado em Milão
em abril deste ano, do qual emergiu um Manifesto Europeu
Socialista, responsável pelas derrotas eleitorais de Blair e
Schroeder nas eleições européias de junho de 1999.
Prosa e verso
O lirismo prevaleceu na cerimônia florentina de 21 de novembro
de 1999. Falou-se em valores: valor da vida humana, valor do meio
ambiente, valor da família, valor do indivíduo consciente e
responsável, valor da ética e da liberdade, valor da justiça
social, valor da ciência e sobretudo valor da cultura (ou do
multiculturalismo). A pregação de valores conseguiu a proeza de
não falar uma única vez do valor propriamente dito, isto é, do
capital e da relação capital-trabalho. Aliás, no vocabulário
da Terceira Via, o conceito de trabalho desapareceu, ficando em
seu lugar ora o termo "emprego", ora o termo
"mercado". Isso explica um dos pontos altos alcançados
pela edificação pastoral de 21 de novembro: Blair, secundado
por Clinton, declarou que os oficiantes da Terceira Via desejam
uma economia de mercado e não desejam os valores da sociedade de
mercado. Uma frase, como disse várias vezes Marx (exímio
analista de fraseologias), faz sentido quando colocada em seu
contexto. Qual o contexto em que a frase "economia de
mercado sem sociedade de mercado" faz sentido? Exatamente no
contexto de um projeto que pretende, no dizer de um de seus
idealizadores, Anthony Giddens, fazer uma economia de centro e
uma política de esquerda, ou seja, manter o núcleo duro da
materialidade capitalista, acrescido dos valores socialistas: o
bolo é o mercado; a cobertura confeitada são os valores
socialistas. Ora, já vimos essa peça antes (na primeira vez
como tragédia, na segunda como farsa e agora, enfim, como
chanchada): enquanto a burguesia fala suas frases em prosa, os
intelectuais ditos progressistas declamam a glosa em verso. A
fraseologia poética de Florença só faz sentido porque os que
de verdade mandam no mundo falam em prosa. A prosa foi falada em
Seattle. Não admira, portanto, que tenhamos passado da polifonia
de Florença à música atonal e dissonante do minimalismo de
Seattle. Fomos levados dos valores ao valor.
A expressão Terceira Via
Parece haver um problema de paternidade no ressurgimento da
expressão Terceira Via: alguns pensam que foi usada pela
primeira vez por Clinton, outros acham que foi introduzida nos
discursos de Tony Blair por conselho de seu mentor, o sociólogo
Anthony Giddens, que, segundo os jornais brasileiros, deixou de
ser apenas o guru de Blair para tornar-se leitura obrigatória
dos assessores de FHC.
A origem dessa fórmula, como reconhecem seus atuais proponentes,
é pouco ilustre: foi empregada pelo fascismo para indicar um
projeto e um programa econômico, social e político que se
pretendia equidistante do liberalismo e do socialismo/comunismo.
Reapareceu nos anos 40 nos discursos de Perón e consolidou o
peronismo. Em outras palavras, outrora como agora, a idéia de
Terceira Via tem a pretensão de colocar-se além da direita
liberal e da esquerda socialista-comunista. Os fascistas, de
fato, foram muito além. O peronismo, nem tanto. E os atuais
proponentes da Terceira Via simplesmente ficam entre ambas,
imaginando que ultrapassaram a contradição de ambas.
Mas se, apesar da história infamante da expressão, ela é agora
retomada é porque, antes do fascismo, ela era o pressuposto
tácito da social-democracia.
De fato, o núcleo duro do pensamento social-democrata, desde
Bernstein, é que o socialismo (ou a propriedade coletiva dos
meios de produção) pode ser e deve ser alcançado por reformas
progressivas impostas ao capitalismo (ou a propriedade privada
dos meios de produção), e não por meio de uma revolução.
Entre o capitalismo e a revolução intercala-se um terceiro
caminho, o da reforma, que humaniza o capitalismo e acumula
forças para passar pacificamente ao socialismo.
Esse pressuposto tornou-se realidade quando a social-democracia
passou a operar com as idéias econômicas e políticas de Keynes
e estabeleceu uma distinção entre economia liberal de mercado e
economia planejada sob a direção do Estado. Com essa idéia, a
social-democracia poderia demarcar sua diferença diante do
fascismo e do comunismo soviético.
De fato, o fascismo imaginara o planejamento econômico como obra
de um Estado policial-militar que propunha a política de
colaboração das classes por meio da organização corporativa
da sociedade, isto é, da distribuição das classes em
corporações da agricultura, industria, comércio e trabalho,
cujas relações eram definidas e mediadas pelo Estado.
Por seu turno, o comunismo soviético propunha o planejamento
econômico também como obra de um Estado forte e totalitário,
na medida em que se fazia presente em todas as esferas da
sociedade por meio da burocracia do Partido Comunista e do
Serviço Secreto e que: 1) se apresentava como o representante da
classe trabalhadora; 2) identificava a idéia de propriedade
coletiva dos meios de produção com a propriedade estatal dos
meios de produção, por meio da nacionalização da agricultura,
indústria e comércio; e 3) impusera a coletivização do
trabalho, mas não a da riqueza social.
Diferenciando-se dos dois modelos totalitários, a
social-democracia, fortemente sustentada por uma base sindical
poderosa e ativa, propôs o que viria a ser chamado de Estado de
Bem-Estar, no qual o planejamento da economia tinha o Estado como
parceiro econômico (na qualidade de definidor de políticas
econômicas e sociais) e de regulador das forças do mercado, de
maneira a conduzi-las pacífica e progressivamente rumo ao
socialismo. Assim, entre a direita reacionária e/ou conservadora
liberal e a esquerda revolucionária e/ou totalitária, a
social-democracia era a terceira via.
O projeto da economia planejada só foi possível enquanto a
acumulação e reprodução do capital se faziam sob a condução
do modelo fordista (as grandes fábricas, organizadas em linhas
de montagem, com controle de todo o processo produtivo, desde a
matéria-prima até a distribuição dos produtos, e sindicatos
fortes) e do processo de trabalho taylorista (ou a
"gerência científica", encarregada de dividir as
classes sociais entre dirigentes, que sabem, e executantes, que
não sabem).
Duas crises simultâneas puseram por terra a economia planejada:
de um lado, a crise geral do capitalismo nos anos 70
(estagflação, crise do petróleo), e, de outro, a crise do
Estado de Bem-Estar (ou a "crise fiscal" do Estado).
Essas crises levaram a uma mudança fundamental no modo de
acumulação do capital (conhecida como acumulação flexível),
que destruiu o modelo fordista-taylorista e abriu o caminho para
o que ficaria conhecido como neoliberalismo ou o
"fundamentalismo do mercado". A social-democracia
parecia ter seus dias contados e só recolhia derrotas eleitorais
em toda parte.
Os desastres sociais do neoliberalismo (desemprego, tragédias
ecológicas, violência urbana, terrorismo, narcotráfico,
desigualdades sociais levadas ao extremo, miséria) e a presença
de movimentos sociais por direitos (feminismo, ecologia, direitos
civis das minorias, lutas pela redução da jornada de trabalho e
pelo emprego) trouxeram a social-democracia de volta. Mas com
nova roupagem e o manto da Terceira Via como afirmação
explícita.
As eleições britânicas
Assim, a expressão Terceira Via retornou na década de 90, na
Inglaterra, com um sentido puramente eleitoral, isto é, o de
oferecer uma nova cara ao Partido Trabalhista inglês, fustigado
durante 20 anos pelo thatcherismo que, então, agonizava.
Politicamente, o eleitorado britânico se via fragmentado e
desestruturado pelos excessos do fundamentalismo neoliberal e
pela passividade e envelhecimento da social-democracia. Essa
situação criava espaço para um vasto contingente de eleitores
insatisfeitos com ambos os lados e aos quais era preciso dirigir
um discurso eleitoral convincente, que reunisse numa só as
idéias de pragmatismo e de modernidade e incluísse os direitos
sociais sob o nome de "valores de esquerda". Essa
tarefa eleitoral foi facilitada pela queda do Muro de Berlim. De
fato, num primeiro momento, a social-democracia não podia
comemorar a queda do Muro porque o que se seguiu imediatamente a
ela não foi o que os social-democratas esperavam. Que esperavam
eles? Que Gorbatchev pusesse a social-democracia em ação na
URSS.
O Novo Trabalhismo
O fracasso de Gorbatchev e o rumo tomado pela destruição da
URSS, deixaram os social-democratas desarvorados, e tão
desarvorados quanto o restante das esquerdas com a
desestruturação da classe trabalhadora sob os efeitos do
neoliberalismo. Todavia, passado o primeiro impacto, o Novo
Trabalhismo inglês transformou a perplexidade em arma: em lugar
de considerar que a URSS fora derrotada pelo capitalismo, passou
a considerar que fora vencida por não adotar uma Terceira Via,
reunindo racionalidade, realismo, modernidade e progresso. A
derrota da URSS e o esgotamento do thatcherismo tornaram-se,
eleitoralmente, a prova da correção de uma social-democracia
renovada.
Único horizonte
Foi possível, então, começar a afirmar que a economia de
mercado é criativa, modernizadora e único horizonte histórico
do século 21. Tal afirmação partia de três idéias
principais:
1) a divisão direita/esquerda não tem sentido, porque só tem
sentido numa sociedade bipolar, isto é, na sociedade da Guerra
Fria;
2) a divisão direita/esquerda deixa a esquerda cega para os
benefícios materiais do capitalismo e a direita cega para a
grandeza dos valores socialistas;
3) a reunião desses benefícios e dessa grandeza para formar um
novo consenso tem como condição desvincular a idéia de
justiça social da idéia de igualdade social e afirmar a
prioridade da iniciativa individual como instrumento de progresso
coletivo contra o postulado obsoleto de propriedade coletiva dos
meios de produção.
Os defensores da Terceira Via confundem a política da Guerra Fria com a divisão de classes posta pelo capitalismo e, como a primeira acabou, acham que a segunda também deve ter acabado |
Esse foi o conteúdo eleitoral do chamado Novo Trabalhismo, cujo
sucesso desencadeou a teorização posterior da idéia de
Terceira Via, que tem como pressuposto básico a harmonia
essencial entre o capitalismo (a sociedade de mercado
pragmática, criativa, inovadora) e a democracia (os valores da
justiça e da individualidade), pois ambos se fundam na prática
da competição e desprezam a busca covarde da segurança a
qualquer preço (isto é, o Estado de Bem-Estar, agora, e a
propriedade coletiva dos meios de produção, amanhã).
O catecismo
A Terceira Via não pretende ser uma simples plataforma
eleitoral, mas uma teoria da sociedade e da política
contemporâneas, com o fito de organizar a ação política do
próximo século.
Em 21 de fevereiro passado, o Mais! publicou um artigo de Anthony
Giddens ("A Terceira Via em Cinco Dimensões") que
resumia os principais dogmas do catecismo da Terceira Via como
proposta de centro-esquerda (em seu livro "A Terceira
Via", Ed. Record, o autor admite que esses dois termos são
usados como uma concessão ao vocabulário político corrente,
uma vez que esquerda, direita e centro, segundo ele, perderam
sentido).
Quais são afinal os cinco dogmas da Terceira Via?
a) Política: trata-se de "modernizar o centro", com a
aceitação da idéia de justiça social e a rejeição da
"política de classes" e da igualdade econômica,
procurando apoio em todas as classes sociais e assegurando que o
governo seja uma das condições para a expansão e o
desenvolvimento da liberdade individual.
b) Economia: trata-se de criar uma "economia mista" que
equilibre regulação e desregulação, levando em conta os
aspectos não-econômicos da vida social. Cabe ao Estado
preservar a competição, quando ameaçada pelo monopólio, mas
preservar o monopólio, quando ameaçado pela competição; criar
bases institucionais para os mercados, uma vez que estes dependem
de grande acumulação de capital que não pode ser feita
diretamente pelo mercado; proteger contra a intromissão
indesejada do mercado os bens públicos e culturais, assim como
proteger as condições físicas e contratuais dos empregados,
"já que os trabalhadores não são uma mercadoria como
outra qualquer"; saber enfrentar as catástrofes engendradas
pelo mercado, estimulando a criação de "empresas
responsáveis".
c) Governo: com o fim da Guerra Fria e da "sociedade
bipolar", os Estados já não possuem inimigos. Enfrentam
problemas. O principal problema para o Estado democrático é o
de sua legitimidade, e esta só será reconquistada com uma
reforma administrativa que torne o Estado um administrador tão
competente como uma grande empresa. Por outro lado, do ponto de
vista da democracia, o principal problema é o de não ser
suficientemente democrática. O novo Estado democrático precisa
democratizar-se e o fará operando por delegação de poder,
referendos, plebiscitos, democracia direta nas localidades,
transparência nos negócios públicos, em suma, por aumento da
participação política com a estratégia de renovação e de
incentivo à formação de comunidades solidárias, voltadas
sobretudo para os problemas da criminalidade e da desagregação
urbana.
d) Nação: tal como pensada e instituída nos séculos passados,
a nação não tem sentido no mundo da globalização, mas isso
não significa que ela não tenha sentido nenhum. Trata-se, pois,
de reinventar a nação num mundo cosmopolita como "força
estabilizadora e freio à fragmentação" e como
"condição do possível desaparecimento das guerras de
grandes proporções entre os Estados". Uma nação moderna
moderniza (sic!) sua identidade e tem segurança suficiente em
sua soberania para não temer o cosmopolitismo do próximo
milênio.
e) Bem-Estar Social: trata-se de corrigir os excessos e efeitos
perversos do Estado-Providência (burocracia, comodismo,
passividade, safadeza) e reformar o Estado de Bem-Estar, tendo
como agentes os indivíduos e outros órgãos, que não o Estado,
criadores de riqueza. A reforma reorientará o investimento
social do Estado, estabelecendo um equilíbrio entre risco,
seguridade e responsabilidade (individual e coletiva) e tendo
como pilar o seguinte princípio: "Investir em capital
humano e não pagar diretamente os benefícios".
Esse curioso princípio é desenvolvido no livro de Giddens como
a substituição da expressão "Estado do Bem-Estar"
por "Sociedade do Bem-Estar": o Estado faz parcerias
com empresas, sobretudo as do terceiro setor (ou serviços), para
a criação de empregos e se desobriga do salário-desemprego; o
Estado faz parcerias com empresas de saúde e se desobriga da
saúde pública gratuita; o Estado faz parcerias com empresas de
educação e se desobriga da educação pública gratuita etc. O
Estado, por meio das parcerias, "investe no capital
humano" (com empregos, saúde, educação) e se desobriga de
pagar diretamente os benefícios, coibindo a preguiça, a
ignorância, a doença, a imundície, a safadeza e outros males
sociais.
O que significam os cinco dogmas desse catecismo?
Pelo primeiro, como será exaustivamente repetido pelos
defensores da Terceira Via, trata-se de abolir da sociedade e da
política o conceito de luta de classes, tido como obsoleto com o
fim da sociedade bipolar. Em outras palavras, confunde-se a
geopolítica da Guerra Fria com a divisão de classes posta pelo
capitalismo e, por conseguinte, como a primeira acabou, a segunda
também deve ter acabado! Eis porque, nem no artigo publicado
pelo Mais! nem em seu livro, Giddens nos explica o que são
classes sociais, o que é justiça social e o que é liberdade
individual. No livro, a modernização do centro significa
forçar a direita a admitir que o Estado tem obrigações
sociais, ainda que mínimas.
Pelo segundo, a Terceira Via mantém a prática neoliberal da
opção preferencial do investimento dos fundos públicos para o
capital, e não para o trabalho, e acrescenta duas pitadas
social-democratas, isto é, para lembrar que a mercadoria humana
é distinta da mercadoria não-humana e inserir as empresas no
universo da responsabilidade moral.
Auto-organização
Pelo terceiro, não se estabelece nenhuma relação entre os
dogmas (a), (b) e (c). Com efeito, com os valores políticos
propostos e com a economia "mista" proposta, a Terceira
Via não encontra aí uma das principais causas dos obstáculos
à democracia e, em lugar de tomar esta última como espaço da
criação e conservação de direitos e como legitimidade do
trabalho das contradições sociopolíticas, a reduz à
proteção comunitária dos indivíduos contra os problemas
urbanos e a delinquência. E as comunidades não são vistas como
pólos de auto-organização social, nem como contrapoderes
sociais contra o domínio estatal puro, nem muito menos como
formas de expressão das classes sociais e dos grupos, e sim como
estratégia estatal para transferência de responsabilidades,
estratégia que se apoia na suposição de que as comunidades
são aspectos do multiculturalismo e da necessidade do
renascimento do espírito cívico! Pelo quarto, nenhuma palavra
é dita sobre a diferença entre nação e Estado-nação;
também nada é dito sobre a necessidade do capitalismo, em sua
fase de consolidação, em possuir enclaves territoriais sob a
forma de Estados nacionais e a desaparição dessa necessidade
econômica no capitalismo contemporâneo; nenhuma palavra sobre o
que poderia ser algo como uma "identidade nacional",
quando sabemos que as nações modernas são instituições, isto
é, construções históricas determinadas por decretos estatais
exigindo a unidade legal e linguística e a defesa das
fronteiras. Em suma, assim como existem o raio, o trovão, o rio
e a floresta, também existe naturalmente a nação, cabendo
apenas modernizar sua identidade. Pelo último dogma, a função
da Sociedade de Bem-Estar é dupla: em primeiro lugar, excluir,
sem danos aparentes, a idéia de um vínculo necessário entre
justiça social e igualdade socioeconômica; em segundo lugar, e
como consequência, desobrigar o Estado de lidar com o problema
da exclusão e da inclusão de ricos e pobres, pois a exclusão
de ambos desestabiliza os governos e a inclusão de ambos é
impossível.
Equívoco de base
Traduzindo: excluída a luta de classes e a igualdade
socioeconômica, o Estado não precisa enfrentar o perigoso
problema da distribuição da renda e pode resolver suas
dificuldades pela privatização dos direitos sociais,
transformados em serviços sociais regidos pela lógica do
mercado. Qual o equívoco de base que compromete a coerência
desse ideário? A suposição de que a sociedade de mercado é
uma entidade operatória à qual se acrescentam ou se retiram
valores, segundo as circunstâncias. Em outras palavras, essa
sociedade não é percebida como uma formação social
determinada pelo modo de produção capitalista que a regula,
legitima e conserva por meio da política e da ideologia. É
porque a classe dominante dessa sociedade afirma que o mercado é
o lugar de criação e expressão da liberdade individual, que
nele são criadas as condições para pensar a igualdade como
igualdade de oportunidades e que a justiça social deve ser
definida como merecimento nos ganhos e nas perdas pelo
comportamento mais eficaz para operar com as regras mercantis, é
por afirmações desse tipo (repetidas e interiorizadas pela
sociedade inteira) que o modo de produção capitalista não é
uma operação econômica à qual se agregam idéias e valores.
Ela é uma estruturação da ação e do pensamento dos sujeitos
sociais e políticos, e não se pode pretender (como, aliás,
sempre pretendeu a social-democracia) que seja possível jogar a
água do banho sem jogar a criança junto.
Espetáculo para massas
A crermos no catecismo da Terceira Via, a nação é um dado
cultural e não econômico-político, de sorte que a questão da
soberania do Estado-nação não pode mais ser tratada como
soberania política e como regulação econômica.
Assim sendo, a "globalização" impõe a criação de
novas instituições internacionais que se encarreguem das
políticas econômicas, sociais e militares que, outrora, estavam
a cargo do falecido Estado nacional. Assim, do lado da economia,
surgem o Nafta (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio), a
Comunidade Econômica Européia, o Pacto Andino, o Mercosul, a
Organização da Unidade Africana, o Grula etc. A elas cabem as
questões do mercado, do desemprego, dos direitos sociais, que
devem ser reguladas por um superorganismo, a OMC (Organização
Mundial do Comércio). Devem surgir também instituições
internacionais que se encarreguem da ecologia, do narcotráfico,
do terrorismo e das guerras (tanto internas como externas), uma
vez que a Otan (aliança militar ocidental, liderada pelos EUA) e
a ONU não parecem suficientes e, sobretudo, são, de fato,
desprovidas de poder autônomo.
Qual é, então, o lugar e qual é o papel do Estado-nação?
Instituir governos que sejam negociadores dos interesses da
comunidade nacional e não pretendam ser representantes do poder
nacional ou da soberania nacional, expressões que o capital
despojou de significado e de função. Se a nação é a
comunidade cultural (língua, religião, costumes), não cabe
tratá-la como sociedade, isto é, como divisão interna de
classes, como oposição entre grandes e pequenos, como
contradição entre ricos e pobres.
Destarte, com o deslocamento da política para o campo
internacional, o que é exatamente a política local? De um lado,
ela é inócua e irrelevante, pois as questões fundamentais da
sociedade não passam por ela -nela se consolida periodicamente o
consenso quanto aos interesses que serão internacionalmente
negociados.
De outro lado, ela é um espetáculo destinado ao imaginário das
massas: diante das incertezas econômicas e políticas, o que
passa a valer é a personalidade do político (sua aparência na
televisão, sua voz no rádio, sua foto nos jornais, seus
hábitos sexuais, sua vida moral, seus amigos).
Cristaliza-se, assim, a ideologia pós-moderna do efêmero,
volátil e intimista que destrói as idéias e práticas
republicanas e democráticas. Ora, o esvaziamento local da
política e o fortalecimento internacional das negociações não
produzem o resultado esperado. A guerra de Seattle, tanto dentro
como fora da OMC, indica que a contradição entre interesses
nacionais é uma contradição de poder e entre poderes locais,
regionais e nacionais. Indica, portanto, contradição entre a
internacionalização da economia e as formas assumidas pela luta
de classes no plano nacional e internacional. É notável ver que
a luta entre excluídos e incluídos, que parecia acontecer
apenas no campo social nacional, ressurja com força máxima em
Seattle, como se viu na divisão espacial das salas dos grupos de
discussão, na questão dos subsídios e das tarifas
protecionistas e nas cláusulas trabalhistas.
Poderia ser diferente? Como uma ideologia que confunde liberdade
com competição, justiça social com desigualdade, argúcia para
explorar e dominar com democracia poderia pretender introduzir na
barbárie capitalista o consenso e a concórdia, a justiça e a
paz? Aliás, desde quando, afora no lirismo poético da Terceira
Via, a prosa capitalista teve tais objetivos?
Marilena Chaui é professora do
departamento de filosofia da USP, autora de "Cultura e
Democracia" (Ed. Cortez) e "A Nervura do Real"
(Companhia das Letras), entre outros.