NÓS
E O GOVERNO LULA
Fato inédito na história do partido, e possível
em virtude de seu crescimento no país e dos próprios recursos
tecnológicos como a internet, estamos abrindo a partir deste
momento um amplo debate referencial sobre as nossas relações
futuras com o governo Lula, que alcançou uma vitória retumbante
nas urnas. Conclamamos a participar e a externar suas opiniões
dirigentes em todos os níveis da organização, militantes e
cidadãos e cidadãs que se identificam com o nosso projeto
político, de construção de uma sociedade ainda mais
democrática, mais justa e vocacionada para o socialismo.
Obviamente, esse debate não terá caráter deliberativo.
Servirá para que o partido possa aquilatar a opinião média dos
seus membros e aliados mais atuantes e, assim, ter elementos
adicionais para melhor respaldar as resoluções do Diretório, a
serem aprovadas na reunião de Brasília, convocada para os dias
nove e 10 de novembro próximo. Afinal, se o governo Lula gera
muitas expectativas, desperta grandes esperanças, também
apresenta-se com muitas incertezas. Não há, em absoluto,
consenso entre os nossos companheiros e companheiras sobre o
próprio governo e, mais ainda, sobre a possibilidade de uma
participação direta ou não na nova administração.
Três canais estarão abertos para receber as intervenções: a
lista de discussão restrita aos membros do Diretório Nacional
(ppsdn@yahoogroups.com); a lista de discussão do PPS
(ppsdfplano@yahoogroups.com) e o site do partido - www.pps.org.br
.
Antecipando-me às contribuições dos companheiros e
companheiras, gostaria de externar as minhas primeiras
impressões - ainda puramente pessoais e, portanto,
exploratórias -, e sem confrontações, sobre o novo cenário
político nacional. E o faço com ênfase - sem a
pretensão de apontar um posicionamento que pretenda ser
hegemônico no PPS, até mesmo porque todos nós vivemos o mesmo
clima de esperança, expectativa e perplexidade ante as mudanças
e desafios agendados pelos milhões de eleitores brasileiros.
Uma certeza: a esquerda brasileira não começou agora no Brasil,
ela funda as suas raízes na sociedade há quase um século,
impulsionada por homens e mulheres de todas as regiões, etnias,
credos, origem social e cultural. A sua vitória hoje, tendo o PT
como pólo hegemônico, isto sim, é que inicia-se no presente.
Não tenho dúvida nenhuma, o triunfo de Lula converteu-se em um
fato extraordinário na história política do Brasil e de todo o
mundo. Comparo-a, em termos de impacto e dimensão política, ao
fenômeno Salvador Allende, no Chile, na década de 70, e à
eleição de Felipe Gonzáles, do PSOE, na Espanha, na de 80.
Dois fatos históricos exponenciais no caminhar da forças
democráticas e da esquerda mundial, o primeiro infelizmente
tendo a tragédia como desfecho, o segundo, representando o
retomar do desenvolvimento em larga escala de um país
amordaçado durante vários anos por uma ditadura fascista.
O governo Lula, porém, guarda muitas diferenças com o período
Allende. Nos anos da via chilena para o socialismo de
esperança, revoltosos e heróicos - vivíamos sob a égide da
guerra-fria e do confronto, em todas as esferas, de duas grandes
potências, em suas zonas de influência e em suas formas de
organização social e de relações entre capital e trabalho,
entre capitalismo e socialismo. Era claro o antagonismo e a
esquerda tinha um projeto de sociedade e uma práxis a ser
seguida, dentro da qual a expropriação dos meios de produção,
a nacionalização das terras e a encampação de fábricas e
empresas - estatização como transição socialista eram
das mais expressivas.
E isso foi o que ocorreu no Chile de Allende. Hoje, o mundo
configura-se de forma diversa: a bipolaridade terminou, emergiu a
realidade de um mundo multifacetado, embora ainda distorcido por
uma incontrastável e perigosa supremacia dos EEUU e por um
processo de globalização que, além de provocar surgimento de
novos fenômenos não presentes na etapa de internacionalização
vivido pela humanidade na era da sociedade industrial, se
expressa muito fortemente pela formação de blocos econômicos
regionais e já tendentes a estados supranacionais. Nessa nova
realidade do mundo, a esquerda, em todos os países e
continentes, não conseguiu formular paradigmas ideológicos
definitivos.
O que estamos afirmando vem corroborado, inclusive, por muitos
estudiosos respeitados, os quais acreditam que a idéia de
modelos racionais e acabados de sociedade, totalizantes como nós
antigos comunistas nos acostumamos a pensar, não mais se
afirmará na história. Em outras palavras, o PT que chega ao
poder, e não por culpa dele, não se apresenta com um projeto de
organização social para implantar, e talvez nem poderia
(embora, me permitam, algumas de suas tendências se pretendam
puras e justas representantes de alguns daqueles modelos já
removidos da história ) . Daí as incertezas.
Se vamos para a Espanha do socialista Felipe Gonzáles, as
identidades com o cenário Lula são mais evidentes. Ali, o PSOE
sucedeu um governo de centro-democrático, presidido por Adolfo
Soares e que consolidara a democracia pós-Franco, e, apoiado na
energia proporcionada pelos Pactos de Moncloa, pavimentou os
caminhos do desenvolvimento e do chamado milagre espanhol. Só
que isso ocorreu no contexto da construção da unidade européia
e em um momento em que a crise econômica mundial não se
apresentava com o grau de complexidade e gravidade dos dias de
hoje.
A história não é determinista e se a ela recorremos ( desde
logo, lembro outros momentos de governos de esquerda como o de
Mitterrand, eleito na sua terceira tentativa e que em aliança
com o Partido Comunista Francês enveredou pela pura e simples
estatização bancária e dos transportes, entre outros setores,
no velho modelo dos trabalhistas ingleses no pós guerra e que,
como exemplo, deve ser analisado e estudado) é para
melhor planejar os nossos caminhos futuros, de forma que a
esperança não seja atropelada por erros de desconhecimento ou
de erráticas concepções políticas e ideológicas. Se há
muitos riscos e imensos são os desafios em um governo como o que
será inaugurado em janeiro, ele também se apresenta com muitas
possibilidades de sucesso. É na melhor alternativa que o PPS
aposta.
Quando discutimos participação em governos, nos níveis
nacional, estadual e municipal, não podemos desconhecer os
nossos interesses partidários, princípios e projetos de
valores. Creio que há um consenso dentro do PPS: sem qualquer
pré-condição, devemos cooperar com o governo Lula, no
Congresso e fora dele. Entretanto, a participação direta na
administração é uma decisão política mais refinada e, a meu
ver, deve estar condicionada, entre outros aspectos, ao grau de
governabilidade desenhado pelo PT e pelo nível de inserção e
influência do partido na condução das políticas de Estado.
Estamos vacinados contra o fisiologismo e síndromes como - a
mais recente - do Memorial Arco-Verde (em Pernambuco, governo
Arraes 1994) e - a mais remota - dos cemitérios (administração
municipal de Erundina, em São Paulo 1988).
Em 1994, também conforme o meu julgamento, o PPS acertou
politicamente ao se proclamar como oposição propositiva ao
governo democrático de Fernando Henrique Cardoso. Em reunião
histórica, avaliamos que FHC tenderia a tensionar a esquerda com
alguns projetos reformistas, particularmente os que contemplassem
a reforma do Estado, e tal vaticínio se verificou. Em vários
oportunidades, por exemplo, no Congresso, o PPS acabou por apoiar
projetos originados no Executivo, confrontando-se com posições
então assumidas pelo PT e alguns outros partidos que agora
chegam ao poder com Lula. Nunca é demais lembrar: o PT chega ao
poder muito em função da prática e dos compromissos
democráticos e das próprias reformas institucionais, algumas
delas nitidamente antioligárquicas, operadas pelo governo FHC.
Espero que o Diretório, em sua reunião de novembro, tenha a
mesma competência e coerência para discutir e avaliar as
relações do PPS com os novos ocupantes do Palácio do Planalto.
Somos parte e construtores da esquerda e com ela somos
solidários. Entretanto, somos também um partido autônomo e
independente e disso nos orgulhamos.
Vamos ao debate sem patrulhamento, como é do nosso feitio, e sem
medo de ousar. Nunca tivemos medo de ousar, desde que o primado
absoluto da democracia seja mantido e a tolerância exercida em
seu cotidiano.
Roberto Freire, atual Senador (recém-eleito
deputado federal em 2002) e Presidente Nacional do PPS.