| MANIFESTO PELA DEMOCRACIA Pelo Diálogo e Pela Esperança Declaração Política do Encontro Nacional do PPS 5 de dezembro de 1999 |
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| O mundo que abre as
portas do século XXI apresenta um quadro contraditório
e ainda dominado pelas desigualdades sociais, mas está
melhor. A democracia se afirma cada vez mais como um
valor universal, embora persistam ações golpistas e
práticas totalitárias. O fenômeno da globalização
abre a possibilidade real da construção de uma nova
ordem mundial regida pela paz, pela democracia e pelo
progresso social, apesar dos revezes sofridos, dos
conflitos regionais e localizados, da persistência da
intolerância e do arbítrio. A própria concentração
mundial de riqueza a favor dos países mais
desenvolvidos, que se tem intensificado, não é uma
fatalidade e poderá ser revertida. A consciência acerca
da preservação da natureza e da prevalência
internacional dos direitos humanos já deita fortes
raízes em todas as culturas. A revolução científica e tecnológica possibilita e contribui para ampliar a expectativa de vida de homens e mulheres. Esses avanços devem ser mediados por políticas e paradigmas democráticos, que evitem riscos de uma sociabilidade perversa. A humanidade, hoje, detém conhecimento e instrumentos com potencial incalculável para resolver os dramas que ela própria gerou ao longo de sua caminhada pela história. O novo mundo que emerge na virada do milênio é cada vez mais integrado. Esse processo, contudo, é conduzido quase exclusivamente pelos mercados, por definição cegos e surdos a vários valores e aos efeitos que produzem em outros campos. O mundo demanda uma globalização democrática, não excludente, que controle os fluxos financeiros e eleve os padrões de desenvolvimento humano, do direito internacional e da justiça social. A nova época não comporta países que insistam em ser gendarmes e controladores dos destinos do planeta. A crise das ideologias reafirmou valores civilizatórios universais, em que pese a ofensiva do chamado pensamento único e de ideologias conservadoras que almejam moldar o mundo apenas aos valores do mercado. A utopia e o sonho por mais igualdade continuam a embalar partidos, movimentos sociais e o pensamento de milhões de pessoas. O século XXI cria condições favoráveis para se pensar com otimismo o futuro da humanidade. Mesmo assim, enormes desafios como as crises de civilização e ambiental, a exclusão social e a dificuldade de acesso à cultura para milhões de pessoas terão que ser resolvidos. Novas formas de ação política precisam ser inventadas Na ordem do dia, por exemplo, já está colocada a proposta de criação de um espaço político planetário para a afirmação dos valores humanos e democráticos, abrindo perspectivas radiantes para a história da civilização. As políticas públicas não devem formular o local e o global como processos antagônicos. A Nação brasileira, neste fim de século, apresenta grandes avanços democráticos e um despertar crescente da importância da cidadania, e não corre o risco do caos e da sua desconstituição. Apesar dos gravíssimos desequilíbrios sociais e regionais, a economia do país oferece muita vitalidade, o que assegura a esperança e a possibilidade da retomada do desenvolvimento sob novos paradigmas. Cenário de retrocessos políticos e de ditaduras que se prolongaram no tempo, o Brasil que se aproxima dos 500 anos fez as pazes com a democracia, caminho único e insubstituível para refundar a República e harmonizar os interesses da sociedade, na direção das maiorias sociais. A cidadania começa a deixar de ser sinônimo de regulamentação de direitos apenas de mercado para, aos poucos, reclamar a sua condição de fiadora de uma nova organização econômica, política e social. As potencialidades da Nação neste século, entretanto, não foram plenamente utilizadas para resolver a angústia e a desesperança que rondam o nosso povo. A crise estrutural, que nos acompanha, é fruto de políticas equivocadas e excludentes de vários governos. E ela permanece. O presidente Fernando Henrique Cardoso, que no início do seu governo dava sinais no sentido de avançar para uma ampla coalizão democrática, preferiu ceder a um bloco conservador e a um pacto político de concepção neoliberal, esta já derrotada em vários países. A estabilidade da moeda, política sempre defendida pelo PPS, é uma conquista a ser preservada. O fim da inflação funcionou como instrumento de distribuição de renda e incorporou ao mercado milhões de brasileiros, mas não criou as bases de uma política de desenvolvimento. Na atualidade, os próprios índices que apontam para uma melhoria nas condições gerais de parcelas das massas empobrecidas são mais o resultado da força da nossa economia, do Brasil do interior e da economia informal, do que da capacidade de intervenção do governo atual e de suas políticas públicas. As reformas reclamadas pela sociedade não foram realizadas em sua plenitude, bloqueadas pela política de conciliação do Palácio do Planalto com a sua base de sustentação e as oligarquias regionais. Temos, ainda, um Estado privatizado, que não dá mostras de competência nem de vocação verdadeiramente pública quando está em jogo a prestação de serviços à sociedade. Há necessidade de uma moderna relação entre o Estado e a sociedade civil, dentro de uma parceria que afirme o espaço público e assuma funções e responsabilidades. O atual governo é o principal responsável pelos déficits comerciais, o endividamento público, o desemprego, pela descapitalização das empresas nacionais, a queda da qualidade de vida de amplos setores da classe média, as privatizações selvagens e lesivas aos interesses nacionais. O Brasil, embora em crise, não pode ser classificado como um país sem saídas ou situado à beira do precipício. A resistência de seu povo e de sua própria economia, agora alicerçada em um regime democrático, garante a renovação da esperança e permite imaginar um novo padrão de desenvolvimento. Não nos marcos do atual sistema de poder instalado, mas liderado por um bloco de forças de centro-esquerda, do qual o PPS é importante parceiro. 2 -
Ética 3 -
Retomada do desenvolvimento Uma nova política de desenvolvimento exige mais do que a estabilidade da moeda. Requer o enfrentamento decisivo da questão do endividamento interno e a superação dos marcos conceituais do neoliberalismo e da concepção estatal-corporativa. Clama por um novo modelo de poupança, assentado no equilíbrio das contas públicas, em uma nova previdência e em superávits comerciais verdadeiros, somente possíveis mediante uma vigorosa política que desonere a produção, priorize a desconcentração industrial sem se submeter à chamada guerra fiscal, se paute pela eliminação dos graves desequilíbrios regionais e agende o estabelecimento de políticas industrial, agrícola, de comércio exterior, creditícia, científico-tecnológica e ambiental. 4 -
Combate às desigualdades É preciso enfrentar com políticas concretas a desigualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros. Também é necessário superar a pérfida distribuição de renda do país e os profundos desequilíbrios regionais, incorporando ao mercado consumidor e, principalmente, à cidadania, dezenas de milhões de excluídos, com destaque para o Nordeste. O Brasil conta em sua população com 14 milhões de idosos, os quais devem ser providos de serviços adequados e de condições para uma vida criativa. O mesmo dizemos em relação aos portadores de necessidades especiais. Quanto aos jovens, não podem ficar sem perspectiva ante o mercado de trabalho. O caótico processo de crescimento econômico levou à concentração da nossa população em grandes cidades, exigindo que se levante a bandeira da reforma urbana. Esta deve se transformar em um vigoroso processo que integre, com ampla participação da sociedade, a miríade de ações locais da sociedade civil e das várias instâncias de governo, articulando políticas públicas nas áreas de educação, saúde, assistência social, segurança, saneamento, transporte coletivo e uso e ocupação do solo. É possível e inadiável transformar nossas cidades em espaços da cidadania. 5 -
Meio ambiente Maiores responsabilidades têm os países que mais impactos provocam no meio ambiente e os que detêm as maiores e mais variadas fontes de recursos. O Brasil insere-se nas duas maneiras. Como uma sociedade que se urbaniza sob formas extremamente poluentes e degradantes e, ao mesmo tempo, como detentora da maior base natural de recursos, cabe-nos uma tarefa de extrema relevância no contexto dessa crise. O PPS assume o compromisso ético inter-geracional contido na proposta de sustentabilidade do desenvolvimento e propugna um modelo que, tendo no homem o valor maior, além de oferecer suporte e matéria prima para a satisfação das necessidades cotidianas, assegure os interesses e a soberania nacional. A Agenda 21 , formulação da sociedade para o próximo século, conta com o apoio e participação do PPS, que vem desenvolvendo debates temáticos especialmente a respeito da questão amazônica, no sentido de estabelecer uma alternativa conseqüente para o falso dilema explorar-preservar. . 6 -
Reforma Tributária Além do IVA - Imposto Sobre Valor Agregado -, a reforma tributária deve consagrar outros tributos, entre os quais o que poderia incidir sobre heranças e doações, hoje adotado com sucesso em vários países do mundo. Todos os tributos relativos à propriedade, progressivos, devem ser repassados para a exclusiva competência dos municípios. Quanto à CPMF, poderia ser transformada em contribuição definitiva, com taxas relativamente baixas para não causar impacto na cadeia produtiva e com caráter compensatório na seguridade social. Não se pode discutir a reforma tributária fora das possibilidades hoje disponíveis. Os novos dispositivos tecnológicos e os mais diversos tipos de redes informatizadas permitem processos de cobrança centralizados, com a imediata distribuição dos benefícios fiscais para Estados e Municípios e o combate frontal à sonegação. O modelo da cobrança declaratória tende a ficar ultrapassado. 7 -
Reforma da Previdência Somos pela adoção de uma previdência social única, compulsória e sem distinção entre servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada, que assegure um limite máximo para as contribuições e benefícios. Paralelamente, defendemos uma previdência complementar, pública, em regime de capitalização e vinculada a um programa de poupança interna, para atender principalmente as faixas de renda mais elevadas da sociedade. A base desta proposta está contida nos projetos apresentados no Congresso Nacional pelo deputado Eduardo Jorge (PT/SP) e pelo senador Roberto Freire (PPS/PE). 8 -
Reforma do Judiciário O primado de qualquer iniciativa para a reforma em questão é o acesso amplo, rápido e barato à Justiça. A tendência de centralização - avocatória e efeito vinculante - e as concessões ao corporativismo dos juízes, advogados e donos de cartórios, que norteiam a proposta em tramitação na Câmara dos Deputados, não enfrentam este desafio. Defendemos a ampliação do âmbito de atuação do Juizado Especial e também o controle social e democrático do Poder Judiciário, eleições diretas para órgãos de direção dos Tribunais dos Estados e Regionais Federais, mandatos não renováveis para ministros do Supremo Tribunal Federal e a adoção da súmula impeditiva de recurso. 9 -
Violência e CPI do Narcotráfico Para que não haja solução de continuidade no combate rigoroso ao narcotráfico, defendemos a transformação da CPI em Comissão Permanente, na Câmara dos Deputados. Corroborando nossa tradição humanista, não concordamos com a redução da maioridade para efeito de imputabilidade de 18 para 16 anos de idade. Ao mesmo tempo, juntamo-nos àquelas correntes que defendem a adoção do conceito de penas alternativas como caminho para incorporar ao convívio social milhares de brasileiros que hoje não têm outra alternativa a não ser transformar-se em vítimas da violência implacável dos presídios. 10 -
Poder Local No contexto do desenvolvimento econômico e social, há que se estabelecer e fortalecer políticas voltadas para o desporto, lazer e entretenimento, objetivando a melhoria da qualidade de vida, a sociabilidade e o bem-estar do cidadão. Tais segmentos constituem-se importante fronteira econômica, capaz de gerar emprego e renda. Atuamos no sentido de fortalecer o papel do município e da cidadania que nele se reproduz. Os municípios devem assumir o SUS na sua gestão plena. O ensino fundamental deve ser municipalizado. A bem sucedida experiência do FUNDEF, embora demande mais recursos federais, deve ser adotada, também, como modelo para a área de saúde, transferindo recursos vinculados ao número de habitantes de cada Município. É intolerável a saúde pública remunerar a doença. O PPS apoia a PEC nº 86, que assegura recursos mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde. Por entender que é necessário uma maior participação das instituições da sociedade civil e dos movimentos em defesa dos sem-terra, dos poderes estaduais e municipais, apoiamos a descentralização da reforma agrária. O Partido defende as iniciativas tendentes a constituir e aprimorar o funcionamento dos Conselhos Municipais, nas mais diversas esferas de ação, como forma de expressar a participação da comunidade no planejamento e execução das políticas públicas. Os municípios equilibrados financeiramente devem ter a garantia de acesso aos créditos e financiamentos de acordo com a sua capacidade de endividamento, com acesso inclusive às instituições multilaterais. Por sua vez, os representantes do PPS nos municípios devem assumir o compromisso de lutar para estabelecer limites de gastos nos legislativos locais. Até março, o partido elaborará um projeto de governo municipal, com marca e identidade próprios. Ele se converterá na principal orientação política para os nossos prefeitos e vereadores. 11 -
Eleições Renovamos
o apelo a todas as forças de oposição democrática a
celebrarem o Diálogo Nacional, movimento capaz de
formular um projeto de centro-esquerda para o país e
escolher, por intermédio de prévias em 2001, um nome
para liderá-lo. O PPS apresenta, como alternativa a este
processo, o nome do companheiro Ciro Gomes: ele se
constitui, ao mesmo tempo, a continuidade do avanço
democrático conquistado nos últimos 15 anos pela
sociedade e a ruptura com as políticas públicas
equivocadas do atual governo, que aprofundam a crise ao
não recorrer às possibilidades disponíveis nos
cenários nacional e mundial visando à retomada do
desenvolvimento. |
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